Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Sobre fé, religiosidade e ignorância popular

Costumo dizer que falta de inspiração e pauta se resolve pegando um ônibus, preferencialmente, lotado. Pessoas, de todos os tipos, são matérias-primas preciosas, não há como ignorar: é preciso parar, escutar e, raríssimas vezes, interferir. Minha última experiência com os causos do transporte coletivo envolveu a incógnita religião e achei por bem compartilhá-la aqui.

Para quem não sabe – e se não fosse feriado em Maceió provavelmente eu também não saberia – hoje é comemorado o dia de Nossa Senhora da Conceição, a santa católica que remete à divindade Iemanjá, a quem a Umbanda atribui o reinado do mar. Sobre o assunto, duas senhorinhas conversavam nas últimas cadeiras do ônibus que tomei ontem; eu estava à frente delas. Foi a primeira quem puxou o mote:

- Amanhã é feriado do quê mesmo, mulher?
- É Nossa Senhora da Conceição, respondeu a segunda, de pronto.
- Ah, essa santa que é Iemanjá, não é?
- É não, mulher – frisou a outra, com propriedade. E emendou: O povo faz muita confusão com esse assunto. Nossa Senhora é Maria, mãe de Jesus. Essa Iemanjá é espírito de macumbeiro, pois Nosso Senhor disse que no mundo só existe um espírito, que é o Espírito Santo. E tirando o Espírito Santo, qualquer outro espírito é do demônio.
- Ah, é mesmo
, concordou a ouvinte, sem argumento.

A conversa prosseguiu quando desci – um ponto depois de demônios e infernos entrarem na história – e eu não poderia deixar de ir pensando naquilo o resto do caminho. Em como é fácil distribuir desconhecimento e equívoco sob a carapaça da verdade, quase um hábito entre religiosos de várias denominações e até de pessoas comuns, como você e eu.

Não tenho religião nem gosto de religiões, porém, acho importante que elas sejam incluídas no currículo escolar básico de forma crítica, para não correr o risco da disciplina se transformar em doutrina no ambiente da sala de aula – o que acontece em muitas escolas. E digo isso com a experiência de quem já passou por colégios que deveriam formar padres ou freiras, mas, no geral, fizeram fieis esporádicos, gentes de outras igrejas, malucos de toda espécie e ateus.

Imagem: Isolda Herculano.

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Já vai tarde, ano velho!

Existe coisa pior do que fim de ano – compras de última hora, shoppings lotados, Simone cantando ‘Então é Natal’ nas lojas de departamento, amigo secreto, 13º comprometido etc.? Existe: o jornalismo de fim de ano. Nem adianta esperar pelo novo; as reportagens do preço da ceia, dos presentes trocados, das vagas de emprego temporário, das simpatias (desde pular ondinhas à cor da calcinha) e, por fim, a ‘bendita’ retrospectiva televisiva estarão cada qual em sua mídia ideal ou em várias delas.

Particularmente acho essas coisas todas de uma monotonia sem tamanho, mas é certo que eu mesma desenvolverei pautas a respeito, irei a campo para reportagens do gênero e deitarei a cabeça à noite no travesseiro com aquela sensação de missão cumprida. Jornalismo é mais ou menos isso e a gente acaba se encantando do que não tem encanto algum. Claro que idealizo um final de ano onde as matérias produzidas mirem o que vem e não o que foi, embora seja visível a inclinação de qualquer um pelo que passou e jamais voltará; e tal sentimento, sem dúvida, é esmagador sobre meus idealismos.

Não que eu seja pessimista, só penso que a realidade é algo bem didático e podemos aprender com ela de maneira mais útil, menos fútil. Por exemplo, minha grande vontade para o 25 de dezembro é escrever sobre o Natal das pessoas que não têm comida no prato para comer ou oferecer aos seus. No dia 1° de janeiro revelar a rotina de quem passa pela vida sem contar os dias, ou porque eles parecem iguais ou porque são iguais mesmo. Numa redação isso pode soar pesado, desesperançoso. Num blog não. É por essas e outras que adoro blogar, ainda quando deixo a desejar no quesito periodicidade.

Por fim, espero que tenham todos um dezembro tranquilo, a intenção de um 2010 promissor, com muitos planos e muitas realizações. E que se estiverem em casa, enquanto a maioria comemora mundo afora, ao menos desliguem a televisão, ouçam uma música dessas atemporais capaz de arrancar um sorriso de canto de boca, uma passagem secreta e boa. Pode ser uma do Belchior que diz “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.
Pessoal, tem enquete aí do lado. Acho que não está cedo para levantar a temática. Ou está? (Risos) Bons dias para todos.
Imagem: Benjamin Feliz.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

A violência nos faz violentos

Eu não sei se a cidade onde você mora é violenta; Maceió, onde eu moro, é. Parece que cada dia mais. E violência assusta de qualquer maneira: uma bala perdida na hora do rush não cai bem, assalto à mão armada, sequestro relâmpago e um tour com bandidos por caixas eletrônicos espalhados por aí, estupro, duplo homicídio qualificado, assassinato também não. Mas aprendemos a conviver com todos esses termos, tão cotidianos eles vão ficando. E a vida segue.

O medo da violência urbana muda muitas coisas em nossas rotinas: desde os lugares aparentemente seguros de frequentar até os horários de voltar para casa, as melhores rotas a seguir, como vestir etc. Olhando pela superfície, essas atitudes todas parecem apenas estruturais, porém, são fruto de uma carga psicológica pesadíssima que incide sobre nós e nos faz violentos. Calma, calma. Eu sei que você pode estar, do outro lado da tela, pensando-se muito tranquilo e repelindo minha opinião. Tenha a bondade de descer até o próximo parágrafo para um breve argumento.

Quer frase mais violenta do que 'bandido bom é bandido morto'? Muita gente jamais a pronunciou, porém, não pode negar – para si mesmo, especialmente: concorda com ela. Toda vez que temos a notícia de um assassino, de alta periculosidade, eliminado numa troca de tiros com a polícia é como se desfrutássemos de uma vitória sem precedentes. E se sabemos do chefe do tráfico ter morrido numa emboscada é uma maravilha. Por pouco não suspiramos um “até que enfim”. Ou suspiramos? É a isso que me refiro quando afirmo: a violência cria criaturas violentas, como todos nós.

Será grave essa coisa de termos pensamentos marginais e querer o outro – assassino, ladrão, estuprador – morto tão violentamente como a violência que pratica? Sim, é meu palpite. Se desejamos isso não é por não ter confiança no bandido simplesmente, mas porque há descrédito na polícia, na Justiça, na mobilização social, em tudo. E a fé, que deveríamos depositar na própria vida, dissipamos na morte alheia.
Pessoal, tem enquete aí do lado. Quero a opinião sincera de vocês. Abraço e boa semana.
Imagem: Google Imagens.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Ele ainda existe!

Uma das surpresas que tive ao visitar estande por estande da Bienal foi a presença de um brinquedo que há muito eu não tinha notícia. Quem é da minha geração deve se lembrar bem do Tamagotchi, o bichinho eletrônico que foi febre da pré-adolescência e dos já adolescentes!

Tamagotchi é mais uma invencionice japonesa, possivelmente pensada por um japonês que para economizar espaço colocou o “melhor amigo” no visor mínimo de uma maquininha.

Mas quem pensa que o bichinho não dava trabalho se engana! Ele tinha que ser alimentado, brincar, receber carinho, dormir e levar toda uma rotina de animalzinho de verdade. Caso contrário, rosnava, chorava e até morria! Lembro de amigos que faziam questão de matar o Tamagotchi (de fome, sede...) por prazer! (Risos)

Devo ter querido meu Tamagotchi, mas não o tive. Lá em casa os cachorros de verdade sempre reinaram. Depois, a moda passou e eu achava que ele tinha acabado de vez, por isso a surpresa.

E você, teve o seu Tamagotchi?
Curiosidade! Acabo de ler na Wikipédia que a mais nova versão do Tamagotchi, o Tamagotchi Connection V5, vem com opção de família, onde ao se comunicar com outro tamagotchi o casal pode até ter filhotes. A V5 tem 3 tamagotchis dentro de um ovo. Depois, quando tiverem idade, os bichinhos podem casar por TV (do tamagotchi) ou por comunicação (infravermelhos).
Imagem: Isolda Herculano.

Domingo, Novembro 01, 2009

Poesia no varal

A primeira vez que ouvi falar na ideia achei genial. Imagine a cena: uma coleção de poemas pendurados em um varal, poetas esporádicos ou profissionais escolhendo e recitando em seguida. Sim, pode escolher mais de um, o importante é respeitar a fila e prezar pela diversidade. O paraíso, eu diria, para quem é chegado no negócio.

Sob a coordenação e o entusiasmo do Ricardo Cabús (@rcabus) a edição especial do Papel no Varal na Bienal deste domingo (1°) foi um sucesso. Eu, que já sentia uma atração tremenda pela temática, adorei. Recitei três poemas: Cogito (Torquato Neto), Amor Bastante (Paulo Leminski) e O Cúmplice (Jorge Luis Borges). Só não fiquei mais pelo adiantado da hora.

OLHA EU AÍ TODA PROSA (E POESIA)!

Ficou com água na boca? Então posso lhe dar a notícia boa de que no próximo sábado (7), às 20h, tem mais. O Papel no Varal estará no estande da SECULT/Biblioteca Pública. Amantes da poesia: compareçam! Soltem o poeta que mora dentro de vocês e pede para sair. Até lá!

Imagem: blog Cacos Inconexos.

O Berro Novo do Jessier

Jessier Quirino é um multi-artista paraibano que dispensa apresentações; caso você as queira dê um clique aqui e siga para a página do poeta. Sua passagem pela Bienal na noite deste domingo (1°) – que pela proximidade do feriado ficou com cara de sábado – foi costumeira: de um sucesso impecável, apesar dos burburinhos de uma criança que no começo do show disputou a atenção da platéia. Categórico e quase gentil ele fez os seus queixumes e prosseguiu. Afinal, não era o berro de um menino novo que iria atrapalhar o Berro Novo do Jessier.

Berro Novo, para quem não sabe, e nem eu sabia, é o seu novo livro, um ajuntamento de causos à moda do artista, tipicamente regido pela vivência matuta. No estande da editora estava sendo vendido a R$ 30 com direito a autógrafo grátis. Não levei o meu, mas recomendo desde já a qualquer um e a todos, pois o poeta vale à pena, desde a superfície da graça de suas palavras até a profundidade do olhar crítico e clínico que lança sobre as coisas da vida.

Jessier, o artesão do pensamento, é dessas pessoas que tenho orgulho de ser contemporânea. Jessier, o homem, não conheço, mas me pareceu tímido – como assumiu em uma de suas passagens. Pouco importa. Com qual facilidade me faz rir e às vezes querer chorar.

Abaixo vídeo com a história de um dos personagens mais famosos de Jessier: Mané Cabelim. Vale pelo áudio. Divirtam-se.

Imagens: Google Imagens.

Falando de acessibilidade

Num evento com o porte da Bienal é imprescindível a pronúncia de uma palavrinha mágica chamada acessibilidade. E é lógico que eu gostei de vê-la, em letras garrafais, chamando atenção no estande do Ministério da Educação, que até quarta-feira (4) ficará sob os cuidados do atencioso Ricardo.

Ótima oportunidade para conhecer uma coleção de livros em Braile, para deficientes visuais, e um dicionário em Libras, a língua brasileira dos sinais, para deficientes auditivos. Esse segundo, eu, particularmente, não conhecia e achei um barato!

Vale à pena conferir e enaltecer essa tentativa de tornar a educação um bem comum a todos. Afinal, são nossas diferenças que nos fazem iguais.


Imagem: Isolda Herculano.

Mania de grandeza

E por falar em tamanho, uma das primeiras atrações quando o visitante adentra o espaço da Bienal é uma mega-versão de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, a maior do mundo, já confirmada pelo Guinness Book, o livro dos recordes. O exemplar de 1,54 metro de largura e 250 quilos faz a alegria da criançada. De todas as idades, claro.


Imagem: Isolda Herculano.

Brincadeira de gente grande

Conhecer e poder interagir com o conhecimento: tem coisa melhor? Quem for visitar o espaço da Bienal vai ter a oportunidade de testar aquilo que aprendeu ao longo da vida através dos gigantes caça-palavra e a maior palavra cruzada do mundo. Adultos se divertem como criança!


Imagem: Isolda Herculano.

Palavra de mãe

A Gianina é mãe da Alicia e uma grande incentivadora do hábito de ler que, segundo ela, é de toda a família. Eu encontrei com essas duas figuras especiais nos corredores da Bienal e não pude deixar de lhes abordar para uma breve, mas feliz, conversa. Acompanhem, vocês vão gostar.

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"O jornalismo é a arte de separar o joio do trigo... e publicar o joio" (Mark Twain)

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