quinta-feira, junho 04, 2009

Reforma pornográfica?

Apesar de considerar mínimas as mudanças que vieram a reboque do Acordo Ortográfico de 1990, não devo ter passado um dia de 2009 sem escutar algum ou muitos reclames a seu respeito. Já até ouvi dizer por aí que os únicos não-prejudicados com a tão falada reforma ortográfica serão os que já escrevem errado, pois estes continuarão a escrever errado. Sei não. Costumo ser mais otimista do que isso.

É claro que tenho meus apegos – e sofro pela perda do trema, entre outras – mas entendo que eles têm a ver com o comodismo, comum a todo ser humano. Nada que me leve ao extremo engraçadinho de chamar a reforma de “pornográfica”, porém. Sei que quando precisar talhar o hífen, em certas ocasiões, será estranho – mas se procurar lembrar do primeiro beijo, da primeira vez, da primeira grande perda etc, verei que tudo é muito estranho no começo. Cairei na besteira de querer escrever anti-semita (e o dicionário do Microsoft Word não cobrará a conta agora) quando o ideal é já ir acostumando com o antissemitismo (assim mesmo, com o “ésse” dobrado). Casos idênticos acontecerão com anti-religioso (antirreligioso), infra-som (infrassom), contra-regra (contrarregra). E nem adiantará ir contra a regra.

Fazendo uma breve viagem no tempo, pensei nos meus antepassados perdendo o famoso “ph” das antigas pharmácias para o simplório e moderníssimo “f”. Na concepção das novas gerações, a primeira grafia é anacrônica e dispensável, principalmente porque ninguém sofreu o processo de transição que – assim como o atual – teve vistas na simplificação. Netinhos sacanas também tratarão de me alfinetar num futuro que parece cada vez mais próximo: “vovozinha, a senhora ainda é do tempo em que ideia tinha acento?”, e rirão mais do que eu. Ou pior do que isso: “vovô, o que são esses dois pinguinhos em cima do ‘u’?”, perguntarão ao meu velho. Um passo para que nos sintamos ultrapassados, mas a vida continuará – até quando? não há como saber.

O lado bom da bagunça organizada é que não mexeram no fonema: então, o tranquilo (com ou sem o trema) continuará sendo tranqüilo; jamais “trankilo” para quem fala. Ah, o acordo também assegura as presenças das americanizadas letras K, Y e W no alfabeto; mudança que já deveria ter ocorrido há tempos. Afinal, não é de hoje que as crianças deste país se chamam Kelly, Yuri ou Washington sem o menor constrangimento.

Enfim, qualquer tipo de reforma é traumática – o ideal é aproveitar o fato do piso não ter cedido, das tubulações não estarem todas entupidas e das esposas não terem decidido, na última hora, tocar a cor dos azulejos. Depois, 2012 é um prazo justo para quem precisa vencer, com mais prática e menos desconfiança, este mais novo trauma de infância.

(Original publicado em 16.01.009)

Um comentário:

marinajsh disse...

Olá Isolda,
Hoje com mais tempo, fiquei "folheando" os seus textos que ainda não tinha lido e este me chamou a atenção, adorei a forma como comenta a reforma ortográfica, com muita propriedade, como também acho que só terá dificuldade quem já não sabia usar, não é verdde?.