quarta-feira, junho 17, 2009

E agora, (jornalista) José?

A notícia de que o Supremo Tribunal Federal (STF) – aquele manobrado pelo ministro Gilmar Mendes e seus capangas colegas – derrubou a exigência do diploma para o exercício do jornalismo não poderia chegar num momento pior. Bem, a partir de agora, então, qualquer pessoa pode deixar de se considerar um jornalista em potencial para sê-lo de uma vez por todas: o motorista de taxi falante, o balconista da farmácia do bairro, a tapioqueira da esquina etc.

Presumo que o casal William Bonner e Fátima Bernardes não está, hora dessas, com a corda no pescoço, matutando o que fará, enfim, de sua pobre condição profissional. Mas imagino pessoas como eu e a minha turma da faculdade – com pouco mais de um ano de formação. E imagino além: como estarão se sentindo os alunos com o curso ainda em andamento? Lembro também do esforço dos meus pais em me manter estudando, durante quatro longos anos, numa outra cidade, outro estado, para que conseguisse ser o que sempre quis e sou: jornalista! A faculdade era pública – menos mal – porém, nada me impede de contabilizar o prejuízo e mandar a conta para a União.

O argumento mais forte para a derrubada do diploma hoje foi que sua exigência fere a Constituição Federal, no que diz respeito à liberdade de expressão. Mas, lendo nas entrelinhas, percebemos o caráter da decisão em favor dos interesses do ‘patrão’, como esbravejam os sindicalistas; o que não chega a ser estranho em se tratando de Gilmar Mendes. Tive um professor que dizia: se amanhã eu chegar ao Hospital Geral e informar a um médico que estou apto a fazer uma cirurgia em seu lugar será um absurdo. Porém, se é o médico que chega a uma redação jornalística afirmando que 'opera' bem palavras e ideias, devo ceder meu lugar a ele, que está no seu pleno direito de se expressar.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) se manifestou afirmando que a luta pela qualificação da formação em jornalismo continua, assim como pela democratização da informação, entre outras. Só fico pensando o que significa, de agora em diante, estar qualificado para o jornalismo: fazer um curso técnico de fim de semana e aprender o que é lead, olho, box ou ter um bom padrinho dentro da empresa de Comunicação?


Isolda diz: A enquete na coluna lateral parece nem ter mais sentido, mas o seu voto é importante ainda assim. Então responda: você é jornalista?

9 comentários:

Mário disse...

"Sua Majestade, o diploma: uma situação hipotética, numa realidade alternativa que transcende o espaço-tempo".

-Nome?

- Machado de Assis.

- Hummm, deixe ver. Escritor... eita! Não pode, não tem diploma. Próximo!

- Mas...

- Próximo!

- Você é...

- Winston Churchill, ao seu dispor.

- Deixe de enrolada, tem diploma?

- Bem, eu tenho um prêmio Nobel de literatura, serve?

- O senhor está brincando comigo? No nosso país só pode escrever em jornal quem tem diploma! Porcaria de prêmio Nobel não quer dizer nada! Só porque é inglês acha que é melhor do que a gente, seu imperialista? Pois eu sou brasileiro e não desisto nunca! O senhor pensa que a época da faculdade foi moleza? A exigência era grande, eu tive de ralar muito, foi um período de sangue, suor e lágrimas. Mas eu consegui meu diploma. Deixar que qualquer fulano não-diplomado venha aqui e se julgue no mesmo nível que eu? Ora, tenha dó, meu amigo!

- Próximo!

- Bom dia, eu sou Eric Arthur Blair, mas sou mais conhecido como George Orwell.

- Outro inglês!? É parente do Tony Blair? He, he, he. Diga aí, meu brother, você esqueceu de pôr a cópia do seu diploma aqui no currículo.

- Bem, é que eu não tenho diploma, mas...

- Sem diploma, sem chances. Só podia ser mais um desses brancos de olhos azuis. Estão achando que esse país aqui não tem lei. Pois eu lhe digo, meu caro, isso aqui é um país de vergonha. Lá naquela sua ilha nevoenta, fria e úmida qualquer um pode escrever em jornal, mas aqui não! Aqui tem de ter diploma! Vamos, pegue isso aqui.

- O que é isso?

- É uma ficha de matrícula no vestibular do CESMAC, uma de nossas universidades privadas. Recomendo que o senhor entre numa faculdade e só me apareça aqui depois de quatro anos, com o diploma. Se preferir, você também pode tentar nossa universidade federal, a UFAL. De qualquer forma, eu ensino nas duas e poderei supervisionar pessoalmente o seu aprendizado. Passar bem.

Mário disse...

- O próximo, por favor. O senhor é...

- Padre Antônio Vieira.

- Padre? Acho que o senhor veio ao lugar errado. Além de diploma de padre, o senhor tem o de jornalista? Nós aqui só queremos saber de jornalistas. E diplomados!

- Infelizmente não, meu filho, mas olhe...

- Padre, com todo respeito, o senhor não está tentando me enrolar, não é? Será que o senhor não sabe que aqui nós só contratamos jornalistas diplomados! Não é nada contra o senhor, mas como fica a qualidade do nosso jornal se começarmos a colocar aqui gente sem diploma de jornalista? Infelizmente não vai dar, padre, e além disso o senhor, por ter uma religião - e ainda mais por ser um clérigo - não será imparcial naquilo que escreve. Aliás, eu acho que todo jornalista deveria ser ateu e de esquerda, só assim para escrever com imparcialidade. Essa foi uma das mais valiosas lições que aprendi na universidade. É por isso que somos diferentes. Por essas e outras valiosas lições é que eu estou apto a escrever e dirigir esse jornal e o senhor não. Próximo, por favor.

- Seu nome, por favor.

- Nelson Rodrigues.

- Hummm... Tricolor... Algumas peças de teatro... Cadê o diploma?

- Não tenho, senhor, mas eu já trabalhei em muitos jornais e...

- Ah! Um representante da idade das trevas! Aquela época em que se podia escrever sem ter diploma! Meu amigo, o que te faz pensar então que vc tem qualidade para trabalhar no meu jornal? Jornalista sem diploma é uma caixinha de surpresas, não dá. Não me faça perder meu tempo!

- Nome?

- Max Nunes. Sabe, eu gosto de escrever e tenho alguma experiência escrevendo para TV, já trabalhei com o Jô Soares e, bem, sabe o que é... Bem, é que eu sou médico, sussurra Max, encabulado.

- Ha,ha, ha. Médico? Pois bem, logo, não tem competência para ser jornalista, não é? Até mais, meu senhor.

Mário disse...

- Que dia! Só charlatão aparecendo por aqui hoje! Próximo!

- Nome?

- Robert Woodward.

- Ianque?

- Como?

- Americano?

- Sim.

- Era só o que faltava. Jornalista?

- Sim, trabalhei no Washington Post, como o senhor pode ver no meu currículo.

- Deixe ver... hummm... Ué? Mas aqui não diz que o senhor é formado em jornalismo... Por Lênin! Uma reportagem sua derrubou o presidente Nixon! Impressionante!

- Ah, sim, é verdade, eu e meu colega Carl Bernstein...

- Impressionante como permitiram que alguém que não é jornalista formado e diplomado publicasse uma reportagem dessas! Só um país de bárbaros capitalistas permitiria tal coisa. Aqui, felizmente, isso não seria possível. O nosso conselho de jornalismo é muito vigilante, atento à qualidade de nossos profissionais. Não se pode sair por aí criticando e caluniando o presidente, afinal, isso pode resultar numa crise institucional no país! É o que dá essa coisa de jornalista sem diploma, é uma tremenda irresponsabilidade. Minha nossa! Você era da marinha!? Um militar! Rapaz, quais são as suas reais intenções? Você é da CIA? Está aqui para melar o quarto mandato do nosso presidente Lula? Acha que somos idiotas, meu caro? Vá embora, volte lá para o seu país e diga que por aqui nós temos seriedade, não é qualquer um que pode escrever num jornal.

- Bem, interessante tudo isso que você disse.

- O que?

- Sobre diploma, essa exigência toda. Vocês realmente acreditam que diploma é atestado de qualidade e de ética?

- Sim, eu acredito. Por que? Algum problema? Vocês americanos não entendem a importância de uma boa formação universitária?

- Deixa pra lá. Goodbye.

Jamylle Bezerra disse...

Pois é Isolda. Para quem tá de fora é fácil pensar que é fácil ser jornalista. Na prática a coisa é diferente. Como disse no meu blog... desrespeito à Constituição Federal que prevê a liberdade de expressão??? Hipocrisia. Cadê a saúde, educação, habitação??? Lamentavelmente, estamos regredindo.

www.jamyllebezerra.blogspot.com

Mário disse...

Diploma não faz um bom profissional, pelo menos nessa área. Muito menos é atestado de retidão moral, de ética. Poderia citar outros "incompententes" jornalistas não diplomados (para quem não sabe Churchill foi jornalista antes de entrar para a política. Ele não tinha diploma, não frequentou a universidade). Vamos lá: Oto Lara Resende, Carl Bernstein, Otto Maria Carpeaux, Carlor Heitor Cony, Millôr Fernandes. Acaso o fato de não serem diplomados interferiu na qualidade de seu trabalho?

Em relação ao casal Bonner, creio que para eles a situação não muda nada, afinal, penso que o patrão deles menos preocupado com o que diz o diploma deles (é bem provável que o casal seja diplomado) do que com sua competência. Não creio que Fátima e William estivessem preocupados com a decisão a ser tomada pelo STF.

Caco Barcellos talvez estivesse. Afinal, ele é mais um da turma dos "sem-diploma". Só para lembrar, Barcellos era taxista.

Nada mudará para os jornalistas com a decisão do STF. Como falou o representante de uma associação de donos de jornais, os veículos continuarão a contratar jornalistas com diploma. O curso de jornalismo não irá acabar porque ele não é irrelevante, e o mercado precisa sim de profissionais diplomados. Tudo continuará como antes. E, graças a Deus, quando aparecer um taxista talentoso, capaz de fazer grandes reportagens, também não haverá problema algum. Tudo muito justo. O bom profissional se afirma pelo talento e pela competência. Reafirmo, a decisão do STF não será nenhuma tragédia para os jornalistas. Se, no entanto, o tribunal tivesse decidido pelo contrário, aí sim, estaríamos incorrendo em grande erro. Creio não haver motivo para tristeza, Isolda, pois a profissão e o profissional diplomado continuarão a ser valorizados.

Mário disse...

Um esclarecimento. Quando digo que o "diploma não faz um bom profissional pelo menos nessa área", me expressei mal. O que quis dizer é que diploma não é atestado de qualidade em nenhuma profissão. Mas, não dispenso o médico da obrigatoriedade. Abrir uma cabeça não é a mesma coisa que escrever um texto, reportar um acontecimento, ou fazer uma análise num artigo. Abrir cabeças, construir pontes e edifícios requer um conhecimento muito específico, um treinamento prolongado. A questão é dos requisitos que alguém precisa ter para atuar como um cirurgião, piloto de avião ou engenheiro. Não se trata de valorizar uma ou outra profissão e depreciar outra, mas tão-somente, destacar o fato de que estes profissionais citados como exemplos, requerem, na sua formação um tipo de conhecimento altamente específico (expressão utilizada por ministros do STF), mas na formação do jornalista não se tem conhecimentos com esse nível de especificidade. Noutras palavras, um cirurgião ou piloto pode, conforme o talento de que disponha e o conhecimento que tenha adquirido,ser perfeitamente capaz de reportar um acontecimento ou de escrever um artigo. As técnicas inerentes às rotinas de uma redação, ou aos diversos formatos de textos, se aprende na própria labuta. Óbvio que as empresas irão preferir profissionais já com experiência nas rotinas próprias da atividade jornalística. Espero ter sido mais claro. Obrigado!

Fabiana disse...

Isolda, ouvi essa notícia logo hj pela manhã, quando estava, no sol quente, esperando uma carona, rs. Lembrei logo de vc, "vai ter postagem nova no mala jornalística". Entendo, compreendo e aceito a sua insatisfação, pensei a mesma coisa quando ouvi a notícia. Profissão é profissão, precisa de estudo, e o que mais me deixa encucada é que estamos no Brasil, país onde parentes, amigos e afins é o que conta, infelizmente!

Isolda Herculano disse...

Machado de Assis, George Orwell ou o padre Antonio Vieira, no jornalismo que tínhamos até ontem, não seriam impedidos de escrever em qualquer jornal, caso fossem habilitados (gramaticalmente, ideologicamente etc.) para tal e tivessem a simpatia do patrão. Pelo contrário, leio todos os dias no jornal Gazeta de Alagoas, por exemplo, artigos riquíssimos de médicos, professores universitários, engenheiros, enfim. Na edição de hoje podemos encontrar lá um advogado, um procurador, um jornalista, na boa função de articulista, e o habito é antigo. Exemplos semelhantes se repetem em outros meios de comunicação pelo Brasil. Homens de boas ideias (ou nem tão boas assim) escreveram para jornais nesses 40 anos em que o diploma disse quem era e quem não era jornalista, sem maiores perrengues.

Agora, um homem pensante e um jornalista pensante são sujeitos distintos, principalmente em se tratando da técnica jornalística, que, irresponsavelmente, o Mendes fez crer que não existe. Existem técnicas no jornalismo que não estão ao alcance de alguém que, na comodidade do seu birô, escreve um artigo fenomenal. É claro que anos de prática diária, dentro de uma empresa de comunicação, podem fazer um profissional habilitado ao jornalismo. Então, porque não preparar uma universidade para formar (nesses anos em que o mercado formaria) um bom jornalista?

A decisão do Supremo, para mim, tem apenas um favorecido: as empresas. E a justificativa dos ministros chega a ser indecente. Além de tudo, desrespeita profissionais que até ontem eram uma categoria e hoje nada mais são do que um aglomerado, como já ouvi dizerem por aí.

Abraço aos comentaristas e visitantes do blog.

José Glaydson disse...

É isso aí, Isolda! Com essa decisão absurda, surge a pergunta que não quer calar: Se o diploma não garante a qualidade do jornalismo, a falta dele garantirá?

Um abraço,

Glaydson