sábado, junho 27, 2009

Eles nunca ligaram para a gente

Quando Michael Jackson veio ao Brasil, em 1996, gravar o clipe da música “They Don't Care About Us”, tenho, entre pouquíssimas recordações, o orgulho de ver o meu Estado, a Bahia, escolhido para a locação de um vídeo do astro pop. Traduzir o título para o português e dar de cara com um salubre “Eles não ligam para a gente” não era importante para uma menina de onze, doze anos, dessas adolescenteszinhas que ainda não sabem das coisas. Eu queria mais era estar no Pelourinho, driblar a segurança e, quem sabe, me aproximar do cantor.

Claro que nada disso aconteceu porque a cidade em que morava ficava além dos 500 quilômetros de Salvador. Tinha a opção de ir ao Rio de Janeiro também, mas essa era mais insana do que a primeira. Pois bem, ficamos então, meus irmãos e eu, acompanhando o visitante ilustre pela TV mesmo, imitando (tragicamente) os passos das coreografias cada vez que tocava uma música dele. Era uma sensação colocar as mãos na genitália e gritar “au” – embalados ao som de "Black or White". Só bem depois conhecemos o Frank Aguiar e tivemos a certeza de que ele plagiava o gritinho-marca do Michael.

O frenesi das reportagens era tamanho e não dava para um grupo de crianças deslumbradas ler nas entrelinhas. Para nós, o clipe não queria mostrar as sub-cidades que existiam dentro das cidades maravilhosas do Brasil, onde a população era vista como sub-pessoas e vivia uma subvida de subúrbio. Valiam mais as cores da Bahia, a paisagem do alto do morro carioca, os moradores sorridentes com sacos de pão chegando a todo instante e uma lona gigantesca de circo sendo armada. Não havia como perceber nada de muito diferente disso.

Hoje eu poderia dizer que continua a mesma coisa, não fosse um detalhezinho: tudo está pior. As mazelas do Brasil aumentam à margem dos maquiadores dos governos; a população é enganada; o presidente desacredita o trabalho sério da imprensa, acusando-a de denuncista; as lixeiras do Senado são mais limpas do que o Senado em si; pão e circo agora podem ser sacados na boca de um caixa eletrônico com um cartãozinho do Bolsa-Família, enfim. Pessoas riem, por ainda terem dentes para mostrar ou porque a miséria intelectual faz muitas delas acreditarem que não são mais tão miseráveis assim. E treze anos depois de tudo aquilo, eles ainda estão muito longe de ligar para a gente, Michael!


Isolda diz: Para completar o momento 'viúvas do Michael (1958-2009)' indico o post 'Michael Jackson quase me fez dançar', do Blog do Nelito. Um barato! Real e cômico, ele dá um outro olhar sobre a situação. Ah, o clipe na barra lateral é da música “They Don't Care About Us”, para quem quiser relembrar. E a enquete continua ao lado! Bom final de semana para todos e todas.



5 comentários:

Rafael Belo disse...

auuu! Quando foi que ligaram mesmo?! Ótima forma de falar da morte de Michael e das nossas mazelas! Beijo IS.

Clauderlan Vilela disse...

Belas palavras, cara colega!
Post inteligente (um outro olhar sobre o tema do momento).
Parabéns!

Wanessa disse...

Isoldaaa! vc é a melhor :) é sempre bom ver uma coisa definitivamente 'nova' no meio das notícias de sempre.. bjo saudaadess

julio onofre disse...

que masssssssssssa. Adorei essa idéia de colocar os audio-posts. Muito bom mesmo.
Ah!sempre gostei de michael, no entanto era apenas o ritmo e o swing contagienate do rei do pop que me encantavam Agora estou em contato com as traduções de suas músicas, e que belea músicas.
belo post.
bela idéia.
bela.

Gonzaga Britto disse...

Na mosca. Convido você para, daqui a 10 anos, escrever este mesmo post: a análise que você faz terá a mesma validade que tem agora. Abraço fraterno, saúde e paz.