terça-feira, junho 09, 2009

Entre a cruz e a espada

Para falar a verdade, não gosto de religiões. Aliás, nunca gostei, mas me permiti o tempo do experimento para ter uma opinião consciente formada. Quando criança, fui adepta do catolicismo; na adolescência freqüentei igrejas protestantes e centros espíritas e não encontrei respostas para as minhas perguntas, basicamente, humanas.

Pois bem, ao me deparar com o mais recente embate igreja versus medicina, não pude deixar minha reflexão de lado. Trata-se do caso de uma criança pernambucana de nove anos que, estuprada, engravidou de gêmeos e foi submetida, na última quarta-feira (4), a um aborto. No Brasil, a prática é ilegal, porém casos em que a vítima sofreu violência sexual e corre risco de vida podem ser avaliados pela justiça e permitidos ou não. No caso da menina, a permissão foi concedida. Como se não bastasse a já trágica situação vivenciada por ela, seus familiares e todos os envolvidos no caso, o bispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a mãe da garota e os médicos que participaram do processo. A criança foi poupada porque, segundo dom José, a igreja “é benévola, sobretudo, com os menores”.

Atenho-me a avaliar as contradições da decisão do bispo, nada mais. Ora, excomungar um grupo de pessoas que, obedecendo a lei dos homens, violou a lei divina é uma justificativa meio incompleta. Diga-se de passagem, o conhecido autor do estupro – padrasto da garota – não foi excomungado. Ou seja, o criminoso pode entrar em qualquer missa, receber a benção de um padre, tomar e beber o corpo e o sangue de Cristo (como eles dizem). Agora, que me perdoem os desígnios do Deus da igreja católica, se cada pessoa que fosse de encontro aos mandamentos cristãos tivesse de ser expulsa da religião, o catolicismo perderia muito mais fiéis do que perde diariamente. Mas existem interesses inclusos em toda conduta religiosa – assunto que vou deixar para outra ocasião.

O que mais me causa repulsa quando penso em religiosidade – vejam bem, religiosidade não é espiritualidade – é o fato dos questionamentos não existirem, dando lugar aos terríveis dogmas, uma espécie de conceito inquestionável, desses que dizem você é assim porque Deus quis e ponto final. Nem vírgula nem ponto-e-vírgula. Já eu, imperfeita que sou, simplesmente não acredito naquilo que não posso questionar.

(Original publicado em 06.03.009)

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