terça-feira, junho 09, 2009

Irmãos, mas nem tanto

Sem querer bancar o irmão ciumento, tampouco diminuir o sofrimento real que a população do Sul enfrentou na ocasião das enchentes de Santa Catarina, em novembro do ano passado, sinto-me a vontade para um desabafo pontual.

Nos últimos dias o Brasil vem acompanhando, via mídia nacional, os estragos que as chuvas têm causado ao Norte e ao Nordeste. Na pauta do noticiário, tudo o que há de mais comovente: mortes por soterramento ou afogamento, desabamento de barreiras, desmoronamento de casas, enfim. Para minha triste constatação, vejo que profetizaram os que disseram lá atrás, em relação à Santa Catarina: ‘se a catástrofe acontecesse nas regiões pobres do país, a mobilização seria diferente’.

Entre o final de 2008 e o início de 2009, várias campanhas em prol da população catarinense surgiram no Brasil inteiro, encabeçadas por anônimos e famosos. Inclua-se o Nordeste na estimativa, já que Recife, capital pernambucana, fez mutirão para arrecadar mantimentos de toda espécie. Digo Recife para dar apenas um exemplo do ato de solidariedade que considero louvável. As ofertas foram tantas que chegou o momento em que as autoridades competentes pediram para que os doadores concentrassem doações em água potável – a maior das carências. Lembram disso? Eu lembro.

Pois bem, a população nordestina e nortista está morrendo, ou perdendo o pouco que juntou durante uma vida inteira, ou vendo seus entes queridos irem embora, ou todas essas coisas juntas. As vítimas da chuva por aqui, na verdade, já eram vitimadas pela escassez de tudo (inclusive de chuva), pela pobreza, fome, falta de educação e de qualquer política pública convincente etc. etc. etc. Talvez por isso ninguém faça o esforço de notar grandes diferenças: é ‘apenas’ o pobre que está ainda mais pobre; é o que ‘só’ sobrevivia e agora não vive mais.

É claro que os dois casos têm proporções diferentes, mas ambos figuram uma mesma situação de tragédia. Também é trágico não noticiar nem ver noticiado que ‘doações chegam do todo o país para ajudar desabrigados e desalojados do Norte e do Nordeste’. Afinal, somos ou não somos todos irmãos?

(Original publicado em 07.05.009)

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