terça-feira, junho 09, 2009

O jornalista e a tragédia


Cobrir uma tragédia não é agradável para ninguém, embora várias pessoas se manifestem contrárias à ação dos repórteres em ocasiões que têm de ser (e, irremediavelmente, serão) veiculadas. Na reportagem de rua, por exemplo, quem nunca foi xingado de urubu, carniceiro, e afins, ao chegar para cobrir uma situação trágica? Poucos profissionais, suponho.

Não sei de onde as pessoas tiraram a ideia de que o jornalista se diverte com a desgraça alheia, mas ela existe fortemente. Eu mesma já cheguei a ser ameaçada, enquanto trabalhava, por supostos familiares de um dependente químico que, histérico, colocou a própria vida e a de vizinhos em risco. Claro que a situação é incômoda, porém acho importante que nenhum colega se sinta intimidado ou constrangido com ela – são ossos do ofício.

Com o recente caso do acidente aéreo envolvendo o airbus da Air France, já ouvi muitas pessoas comentarem que os jornalistas se excedem ao exibir/publicar matérias que apenas evidenciam o sofrimento das famílias, sem alguma utilidade pública. O engraçado é que essas mesmas pessoas assistem ou lêem as reportagens completas, acompanham nos sites e se dão ao trabalho de expor detalhes em conversas de mesa de bar. Ou seja: seguram a audiência de algo que consideram abusivo.

O jornalismo é medido em números de vendagem e ibope, claro, mas funciona mais ou menos assim: os veículos mostram o que as pessoas querem ver. E cada vez que o expectador reclama de algo trágico nos jornais e na TV, de repórteres que ‘fazem festa’ com a dor dos outros, esquecem que acompanham tudo via-mídia, sentados no confortável sofá de suas casas, sem mea culpa.

Isolda diz: Ao Anderson, que puxou um mote interessante no comentário: as pessoas mandam na programação ou a programação manda nas pessoas? Já discuti muito isso na faculdade, e ainda fico com a primeira opção. É claro que a televisão, por exemplo, não mostra tudo o que poderia mostrar, mas ela mostra tudo o que tem certeza que as pessoas, em sociedade, anseiam por ver. Se, descontente com o baixo nível das emissoras, a audiência desligasse a TV e fosse ler um bom livro, as fórmulas seriam repensadas nos veículos. Mas infelizmente, impor vontade para quem vê tevê ainda é pegar o controle remoto e mudar para outro canal de programação, semelhantemente, duvidosa. Beijos para todos os amigos-leitores que migraram com o blog. Até a próxima!

4 comentários:

Sérgio Coutinho disse...

Isolda, gostei muito mais do novo layout do que do anterior.

O conteúdo nem preciso elogiar. Gosto do teu estilo já faz tempo.

Vou assinar o feed para receber teu blog (estava recebendo por e-mail).

Abraço,

Sérgio

Estêvão dos Anjos disse...

é uma situação delicada, mas que precisa ser feita, como você disse: ossos do ofício.
E quanto ao pessoal que nos chama de urubu e afins, é meio contraditória a postura dessas pessoas. Antes de mais nada trabalhamos para uma empresa jornalística, que assim como outra qlq, visa lucros que sao obtidos por vendagem de edições, acessos e por aí vai... Se a formula espreme que sai sangue ainda continua rentável, creio que os carniceiros estão do outro lado.

Ah, bem vinda ao blogspot :p

Anderson Santos disse...

Realmente são ossos do ofício, mas certas coisas são deveras exageradas. Muitas informações são repetidas. E neste caso a assessoria da Air France soube resguardar as famílias, que pouco aparecem na imprensa.

Só discordo de que "os veículos mostram o que as pessoas querem ver". Acho que os veículos nos fizeram querer ver certas coisas. Tentemos mostrar outras.

Rafael Belo disse...

É o caso do zapear, folhear ou não ver, mas o ser humano é um curioso inato e muitas vezes mórbido. Todos são culpados... É bom mudar de visual e hospedagem . COmo está? Beijso IS