terça-feira, junho 09, 2009

A juventude desacreditada

Com a propriedade de quem tem a juventude como argumento, garanto – mais do que admito: não é fácil ser jovem no Brasil. E quando digo isso não me refiro aos conflitos da idade, ao mercado de trabalho cada vez mais sufocado e nem as tolices características da geração dos vinte e poucos anos. Falo da dificuldade de compor a juventude, partindo do ponto de vista de quem olha para ela com descrédito e desdém. Explico melhor, claro.

Alguns dos textos que publiquei – nos meus blogs ou em outros meios – despertaram comentários elogiosos assim: “Nossa!como você escreve bem. Quando olhei a sua idade, quase não acreditei” (sic). E similares. Eu poderia levar as opiniões para o lado da lisonja apenas, mas sempre me chamou mais atenção o fato do descrédito na boa escrita, na crítica e no embasamento intelectual dos jovens de hoje. É como se reunir tais características fosse um feito para pessoas como eu, com 24 anos e uma vida pela frente.

Cabe ressaltar: dizer que os jovens têm uma vida pela frente não exclui a verdade de que eles já tiveram algo atrás. Mas as experiências da juventude parecem só ser contabilizadas quando se envelhece – o que chega a soar com ilogismo. Eu sou apenas um caso de jovem que saiu de casa cedo, está longe das pessoas que mais ama, recebe rasteiras diárias da vida etc. No caminho, tantas vezes tortuoso que tracei e traço, conheci muita gente que tem uma visão diferenciada da existência e manifesta isso através da escrita, da música, da atitude – que seja! E uma agradável constatação: quase todos são jovens. Alguns mais jovens do que eu e mais talentosos no que se propõem a fazer.

É uma pena que os meios de comunicação, as editoras, as gravadoras e os canais de propagação da imagem, em geral, dêem evidência a tantos exemplos sinuosos de jovens astros e anônimos: que se drogam, não sabem falar o português "correto", escrevem pior do que falam, não respeitam ideologias e sentimentos alheios, enfim. Por conta disso, jovens com boas intenções e invenções ainda são considerados a exceção. E a juventude – ah, a juventude – não deixou a (velha e empoeirada) cara de transviada.

(Original publicado em 21.03.009)

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