terça-feira, junho 09, 2009

O bom maconheiro

Quando se discute a legalização da maconha no Brasil, muitas pessoas acreditam que irá surgir um quadro simples, onde o temido traficante se tornará, de um dia para o outro, um comerciante de respeito, respaldado pelas leis vigentes. Há também o discurso de que países de primeiro mundo, como a Holanda, já descriminalizaram o uso da droga - e quem é que não tem um amigo maconheiro que sonha ir a Amsterdam?. A “novidade” é que o conto de fadas não deveria ser contado assim.

É claro que o raciocínio vai parecer (e é) careta, mas não posso acreditar que liberar a maconha, para o consumo, trará benefícios ao país. Meu primeiro argumento é que os traficantes não deixarão de ser traficantes porque um item, entre todos os “produtos” que oferecem, foi legalizado. Eles continuarão a vender a cocaína, o crack, o ecstasy e as demais drogas químicas que surgem a cada dia. O que eu quero dizer é: caso a defendida “liberação” da maconha não seja a tentativa de dar fim ao tráfico, a discussão se torna unilateral e pobre, já que parte do desejo de criar uma lei em privilégio de uma minoria e não da sociedade em geral.

Segundo ponto: o mito de Amsterdam. Comparar a legalização do consumo da maconha entre dois lugares cultural, econômica, política e socialmente diferentes já é um argumento fraco. E depois, a Holanda não é a “terra sem lei” que muitos imaginam; é salutar lembrar que lá a maconha não é ‘liberada’ e sim ‘tolerada’. Ou seja, existem lugares específicos para se comprar drogas naturais sem aditivos químicos (cogumelos e versões herbais de ecstasy servem de mais exemplo). A venda também é controlada por usuário nos coffee shops, estabelecimentos licenciados para a aquisição e consumo de pequenas quantidades de maconha. Isso equivale a dizer que sair fumando pelas ruas pode ser considerado uma afronta pelos guardas locais, portanto, é ato não-indicado, assim como portar “doses” excessivas de droga.

É bem verdade que todo malefício da maconha tem sido suavizado pelo surgimento de drogas tidas como mais nocivas ao organismo humano. Representantes da classe dos artistas, jornalistas, políticos etc. já se manifestam abertamente em favor da descriminalização e a patologia, que é a dependência química, vai cedendo lugar ao modismo ideológico do “legalize já”. Mas eu não posso deixar de imaginar que por trás de tanta vontade engajada exista alguém que não queira arriscar a vida subindo um morro (ou descendo uma grota), não deseja escancarar seu endereço em serviços delivery (o disk-droga) e prefere, enfim, pensar que futuro próspero é poder descer da altura de seu apartamento, comprar uma quantidade qualquer de maconha e pagar com cartão de crédito.

E não há quem me tire da cabeça que é esse o bom maconheiro que o Brasil não precisa.

(Original publicado em 25.03.009)

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