terça-feira, junho 09, 2009

O que é a vida?




Desde que o assunto eutanásia entrou no campo das polêmicas noticiadas, tenho acompanhado timidamente os casos com tristeza e dúvida. E, perdoem minha ignorância, mas sempre acreditei que a “morte assistida” fosse um processo menos cruel do que tem se apresentado no caso recente da italiana Eluana Englaro – uma mulher de 38 anos que, há 17, vive em estado de coma irreversível.

Para fugir do campo de divergência ciência-religião, já desgastado pelo tempo, não questiono a família, que se diz porta-voz de uma manifestação de Eluana, antes do acidente que a colocou em estado vegetativo; tampouco a Igreja Católica e todos os seus motivos em defesa da existência acima de tudo. Questiono a maneira como a paciente é exposta à morte, porque não tenho como não considerá-la uma brutalidade. E que se entenda: brutal não é a decisão de interromper a subvida de Eluana, mas o modo como ela está sendo interrompida.

Quando não temos experiência parecida em nossas vidas, costumamos ligar casos como o de Eluana aos noticiados anteriormente ou até mesmo à ficção, através de filmes que vimos (como, por exemplo, Menina de Ouro). Deste modo, eutanásia, para mim, sempre foi um processo em que um paciente era desligado de aparelhos elétricos que mantinham sua vida ou, num extremo, quando recebia uma injeção letal. A “morte assistida” passava a impressão de ser assim: rápida e o menos dolorida possível.

Agora vejo os médicos divulgarem que a comida e a hidratação de Eluana foram suspensas e que seu “processo de morte” deve durar de 12 a 14 dias. Ou seja: sem alimento e água no organismo, a paciente morrerá de fome e sede. Médico do caso, o neurologista milanês Carlo Alberto Defanti, já declarou que, como o estado físico de Eluana é ótimo (o acidente a abalou apenas neurologicamente), ela pode resistir mais do que a média.

Estudando sobre o assunto, encontrei duas subdivisões para a eutanásia. A primeira delas é a “ativa”, que se caracteriza por um acordo entre médico (e/ou família) e paciente para provocar, de alguma maneira, a morte deste último. Constitucionalmente, a modalidade é proibida na Itália. Já na eutanásia “passiva” a morte não é diretamente provocada, mas também não é evitada.

Em defesa da manutenção da vida da paciente, o premiê italiano Silvio Berlusconi está redigindo um projeto de lei para que ela volte a receber atenção médica, suspendendo o processo de eutanásia. Inerte às decisões polêmicas, Eluana está a três dias sem comer e beber enquanto aguarda, passivamente, a hora de sua morte.

(Original publicado em 09.02.009)

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