terça-feira, junho 09, 2009

A poesia sobrevive

Quem eu seria se não fosse eu? Essa é a espécie da pergunta que já permeou meu vasto campo de dúvidas, sempre trazendo respostas diferentes. Freud não explica, ninguém explicaria. Mas é gostoso traçar as mais variadas projeções, às vezes, apenas para testar o meu (o seu!) senso de verdade.

Dentro dos padrões socialmente estabelecidos, sou uma pessoa boa: nunca matei, roubei, trafiquei etc. Porém – ah, porém – a bondade faria parte da minha conduta se acaso eu nascesse em outro lar, tivesse pais desequilibrados, conhecesse a fome, o desprezo e a covardia bem de perto? Julgar é muito fácil (que me perdoem os juízes de Direito); fácil porque a maioria das pessoas nos parece condenável, embora ser julgado por qualquer uma delas é ofensa sem tamanho. Não há quem tolere um banco de réus.

De repente, dia desses, chego numa cela de delegacia que acabou de ser violada por treze presos propensos à fuga e vejo o seguinte verso na parede: feliz ano novo; vamos roubar, matar e fazer tudo de novo. E no ambiente não é apenas a parede que fala: falam os objetos, o chão, os números, as grades, o espaço, o lugar, tudo – nada parece calado. Há alguns meses atrás, conversei com um defensor público, Dr. Manoel Correia (cara jovem, descolado), e concordamos em vários pontos, entre eles: não há como ressociabilizar o preso do sistema carcerário brasileiro, de um modo geral. Menos ainda o do alagoano. Afinal, como ressociabilizar alguém que não foi socializado?

Olhando a foto da parede, chego à conclusão de que a palavra sobrevive a qualquer ambiente – sem se importar com o quanto hostil ele é: dita, escrita, pronunciada baixinho para que ninguém escute. Mas e a ética do ser, a bondade humana, o sentimento de culpa e a vontade de melhorar sobreviveriam acima das circunstâncias? Até onde nós podemos ir se formos, desde muito pequenos, ‘ensinados’ a agir de acordo com nossos instintos mais primitivos? Fica a dúvida para posterior reflexão.

(Original publicado em 30.03.009)

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