terça-feira, junho 09, 2009

Zurique não é Recife

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Diplomacia à parte, o Brasil nunca teve uma boa reputação frente aos países europeus e do primeiro mundo. É certo que nossos milionários alimentam contas gordas em paraísos fiscais suíços e universalizar a Amazônia é a ambição de muitos gringos visionários, mas, salvo exceções, o país ainda carrega o estigma de exportador de prostitutas e trabalhadores ilegais para as nações desenvolvidas.

Ao saber do caso da pernambucana Paula Oliveira, supostamente agredida por neonazistas em Zurique (nordeste da Suíça), foi instintivo lembrar de Jean Charles de Menezes, brasileiro morto como terrorista por policiais numa estação de metrô em Londres. Naquela época, 2005, as versões apresentadas pela defesa londrina punham Jean – vítima incontestável – na posição de responsável pelo crime através, inclusive, de declarações forjadas, e desmentidas posteriormente. Como se vê, somos o que pode ser chamado lado fraco quando a corda arrebenta.

É claro que eu nem poderia sonhar com o desdobramento do “caso Paula”, mas era de se esperar uma dura reação suíça, principalmente pela gravidade dos fatos. Morar em um país distante – mas receptivo, até então – deve ter provocado na brasileira a confortável sensação de estar quase em casa. Afinal, Paula trabalhava no país, vivia em Zurique com o noivo suíço, teria filhos com aquela nacionalidade etc. O primeiro sinal de que era uma estranha no ninho deve ter sido a reação dos investigadores que, de pronto, desconfiaram da versão dela após lhe prestarem socorro. Os suíços nunca passaram a impressão de considerar Paula a vítima, por mais aparência de vítima que tivesse.

Com as investigações em andamento, a Suíça tem “munição” para pôr o Brasil, internacionalmente, em maus lençóis. Atestar a não-gravidez da brasileira no momento do “ataque” talvez seja a mais importante delas. A defesa de Paula, que até agora tem se concentrado em relatos de um pai desolado pela situação, não tem como provar a afirmação da jovem, que se dizia grávida de gêmeas até sofrer um aborto em decorrência das agressões. Os cortes simétricos no corpo da brasileira – com a sigla do partido que tem uma facção contra imigrantes – poderiam ter sido feitos por ela mesma, avaliam peritos estrangeiros e brasileiros. A imprensa suíça, abertamente, duvida da versão de Paula e já há uma pressão por lá para que ela seja punida.

No Brasil, fora o depoimento de parentes e amigos convictos da verdade de Paula, as opiniões refletem um único sentimento: a dúvida. E duvidar é bom, porque, desde Platão, somos enganados por nossos sentidos e pelo imediatismo de nossas decisões. Embora eu (e você) já possa sentir, nas ruas de uma cidade tão nordestina quanto Recife, que brasileiros e brasileiras estão mais convencidos da versão suíça, não custa apelar para a prudência até que este caso se resolva. Com um pedido de desculpa diplomaticamente aceito ou com mais um arranhão em nossa arranhada reputação mundial.

(Original publicado em 15.02.009)

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