terça-feira, julho 28, 2009

Vale quanto pesa?


Desde que ouvi falar no novo programa do governo federal, o Vale-cultura – digamos, um Bolsa-família para o setor – comecei a desconfiar da boa vontade dos pais da ideia. O dispositivo, que teve seu projeto laçado semana passada pelo presidente Lula, prevê uma ajuda de custo de R$ 50 mensais (em créditos num cartão magnético) para trabalhadores brasileiros que ganham até cinco salários mínimos. E até aí tudo bem.

No discurso de lançamento, o multicultural Affonso Romano de Sant’Anna, presente ao evento, observou o empenho de Luiz Inácio ao tratar de cinema. A sétima arte predominou por sobre as outras e, como o poeta destaca em seu blog, a palavra “livro” sequer foi mencionada pelo chefe do Executivo, assim como “leitura” e “biblioteca”. Estranho falar em cultura e não pronunciar pelo menos um desses três vocábulos mágicos, não? Não para o presidente. O G1 também destacou a fala de Lula dizendo que é preciso disseminar salas de cinema nas regiões periféricas; e não pude deixar de relacionar o esforço cinematográfico para colocar expectadores em frente à telona com as vésperas da película “Lula, o filho do Brasil” ser lançada – como já destaquei em outro post. Com esse pensamento as coisas começaram a clarear para mim.

De acordo com o projeto, que prevê gastos de R$ 600 milhões por mês (mais do que oito vezes o valor devotado à Lei Rouanet), segundo dados divulgados pelo próprio Ministério da Cultura e colhidos pelo jornalista Gilberto Dimenstein, o Vale-cultura poderá ser utilizado para ingressos de cinema, teatro e shows e na compra de livros (oh!), CDs e DVDs. Sabem qual o percentual de brasileiros que nunca assistiram a um espetáculo de dança? Exatos 80%. E quantos nunca pisaram no chão de um museu? Meros 92%. Números como esse serviram para embasar o plano do governo. Infelizmente, o mundo virtual das ideias se difere, e muito, da realidade do País, já que a mesma informação dá conta que 80% dos municípios brasileiros não possuem um museu, um teatro, um centro cultural ou coisa que o valha.

Fico, então, pensando cá com meus botões: qual há de ser a aquisição cultural de um trabalhador que não tem o privilégio de morar em uma das cidades que compõem os 20% do acesso real à cultura. Ele terá R$ 50 no bolso e nenhum cinema, nenhuma livraria, nenhum museu. Restará a opção de entrar numa dessas lojas de CDs, cada vez mais raras, e sair feliz com três volumes, no máximo: um da banda Calypso, outro de Aviões do Forró e o terceiro do petebista Frank Aguiar talvez.

Imagem: Google Imagens.


Isolda diz: É, enquanto o Lula divulga seu Vale-cultura eu permaneço aguardando o lançamento do Vale-emprego para, quem sabe, ter acesso ao cartãozinho (Risos). E para testar o nível cultural dos leitores do blog (bem ao estilo governo federal) estou lançando uma pesquisa aqui, em forma de enquete: Quantas vezes você já visitou um museu? Logo abaixo, a da semana passada continua até vencer o prazo de validade. Aproveitem para responder as duas!

2 comentários:

Rafael Belo disse...

Vale-conhecimento... (risos) Penso que é necessária certa bagagem par aenter algumas manifestações culturais, ou não? Enfim primeiro deveria haver a construção das "culturas" na cidade que só pdoem comprar cd's. Boa Is. "Vale-emprego" estou na fila kkk beijos querida

Fabiana disse...

Isolda, esse Brasil é engraçado mesmo né?
Bjs