quinta-feira, agosto 20, 2009

O poder da intolerância


Há poucos dias atrás, um jovem de 21 anos foi capturado na orla marítima de Maceió por dois homens armados que o levaram para um canavial na periferia da cidade e atearam fogo nele – queimando cerca de 80% do seu corpo. A cidade ficou tomada por uma comoção geral, as pessoas se manifestavam nos sites de notícia, queriam saber da saúde de Fábio, exigiam a prisão dos acusados, clamavam por segurança pública (um grito antigo ecoado na capital alagoana). De repente, tudo mudou.

A primeira hipótese para o crime – sequestro relâmpago – caiu cedo por terra. Ora, os bandidos aparentemente não levaram nada de valioso e até queimaram o carro importado do rapaz em outro ponto da cidade. Daí surgiu a teoria do ‘crime passional’, que pareceu, aos olhos de todos, mais lógica. Fábio seria homossexual e, após o rompimento de um relacionamento, o ex-companheiro teria tramado a vingança. O dolo permanecia brutal, a saúde do jovem ia de mal a pior, os criminosos ainda não tinham sido localizados (apesar do retrato-falado), mas o clamor popular e mesmo a veiculação do caso na mídia esfriou.

Os comentários nos sites tinham mudado o prumo. O predomínio do pejorativo, e o silêncio, evidenciaram o preconceito com o rapaz; escancaradamente, pela condição sexual dele. Vi coisas do tipo: “em briga de marido e mulher não se mete a colher” ou “será que ele vai perdoar por amor?”. Nos pontos de ônibus as pessoas costumam ser mais parvas: “esses ‘viados’ são rancorosos mesmo”, “eu acho é tome!”, “isso é o que dá se meter com outro macho” (frases retiradas de um diálogo, entre dois “machões”, que eu mesma presenciei). E Fábio continuava a arder num hospital da capital alagoana, de onde foi transferido depois para um especializado em queimados, no Recife.

Nas ruas quase não escuto mais comentários sobre o episódio, virou ‘jornal de ontem’. A imprensa, aqui e acolá, relembra o fato, pois o depoimento crucial do jovem – que segue internado em estado grave – ainda não foi tomado. Repercute agora o caso de um travesti agredido impiedosamente por policiais durante a ‘parada gay’ de uma cidade do interior alagoano. Mas esse assunto logo passará, suponho. Talvez os culpados sejam dados como inocentes ou paguem a pena irrisória do aquartelamento, enfim.

Eu torço pela recuperação de Fábio – alguém que nunca vi pessoalmente, não conheço – simplesmente porque não me apetece compartilhar sentimentos de intolerância e preconceito. E é bom saber que mais gente pensa assim. Continuo querendo ver os culpados (mandante e executores) condenados, pois esse crime não foi por “amor”, como também já tive o desprazer de ouvir, mas por desamor, à humanidade.

Atualização (31 de agosto): Fábio faleceu dia 26/08 em Recife.

Foto: Fábio Acioli (arquivo pessoal).

Pessoas! Nova enquete no ar (logo aí do lado -->): qual a sua relação com a homossexualidade? A opinião de vocês, como sabem, é muuuuuuuuuuuuuito importante. Não deixem de votar. Ah, e ainda restam alguns dias para responder a questão antiga: você acredita em Deus? BeijoMeLiga! E paz na Terra aos homens de boa vontade.

3 comentários:

Estêvão dos Anjos disse...

Ótimo texto Isolda, olhar bastante perspicaz.

P.S Algo me diz que o resultado dessa sua enquete não vai ser lá muito fiel.

Rafael Belo disse...

Concordo com EstÊvão sobre a enquente. E ótimo olhar, IS. Intolerância e preconceito matam a humanidade. beijos de sexta.

Jamylle Bezerra disse...

Também ouvi comentários do tipo: "mas ele era gay". Como se a opção sexual justificasse tal ato. O amor e o respeito pelo próximo parece ter chegado ao fim. O preconceito agora é quem fala mais alto. Infelizmente!