segunda-feira, novembro 16, 2009

A violência nos faz violentos

Eu não sei se a cidade onde você mora é violenta; Maceió, onde eu moro, é. Parece que cada dia mais. E violência assusta de qualquer maneira: uma bala perdida na hora do rush não cai bem, assalto à mão armada, sequestro relâmpago e um tour com bandidos por caixas eletrônicos espalhados por aí, estupro, duplo homicídio qualificado, assassinato também não. Mas aprendemos a conviver com todos esses termos, tão cotidianos eles vão ficando. E a vida segue.

O medo da violência urbana muda muitas coisas em nossas rotinas: desde os lugares aparentemente seguros de frequentar até os horários de voltar para casa, as melhores rotas a seguir, como vestir etc. Olhando pela superfície, essas atitudes todas parecem apenas estruturais, porém, são fruto de uma carga psicológica pesadíssima que incide sobre nós e nos faz violentos. Calma, calma. Eu sei que você pode estar, do outro lado da tela, pensando-se muito tranquilo e repelindo minha opinião. Tenha a bondade de descer até o próximo parágrafo para um breve argumento.

Quer frase mais violenta do que 'bandido bom é bandido morto'? Muita gente jamais a pronunciou, porém, não pode negar – para si mesmo, especialmente: concorda com ela. Toda vez que temos a notícia de um assassino, de alta periculosidade, eliminado numa troca de tiros com a polícia é como se desfrutássemos de uma vitória sem precedentes. E se sabemos do chefe do tráfico ter morrido numa emboscada é uma maravilha. Por pouco não suspiramos um “até que enfim”. Ou suspiramos? É a isso que me refiro quando afirmo: a violência cria criaturas violentas, como todos nós.

Será grave essa coisa de termos pensamentos marginais e querer o outro – assassino, ladrão, estuprador – morto tão violentamente como a violência que pratica? Sim, é meu palpite. Se desejamos isso não é por não ter confiança no bandido simplesmente, mas porque há descrédito na polícia, na Justiça, na mobilização social, em tudo. E a fé, que deveríamos depositar na própria vida, dissipamos na morte alheia.
Pessoal, tem enquete aí do lado. Quero a opinião sincera de vocês. Abraço e boa semana.
Imagem: Google Imagens.

6 comentários:

Mário disse...

Não é porque há descrédito que temos reações desse tipo. A infâmia, a torpeza, despertam a ira do mais pacífico dos homens. É natural que ira e revolta se manifestem diante de atos torpes. Tais reações são próprias de todos homens e épocas. Há algo errado com quem permanece frio e calculista diante de um crime hediondo. A reação natural é de ira, ódio e raiva contra os autores de crimes que privaram famílias de seus entes queridos, muitas vezes por motivo fútil.

Porém, se a causa de tais reações não é exatamente o descrédito em relação à justiça, este potencializa as reações emocionais. Ora, a indignação perante a injustiça é não só natural como desejável. No entanto, nossa moral e tradição exige que não nos deixemos levar por impulsos extremos de ira e revolta que nos levem a desejar e buscar a vingança. Em vez desta, a justiça, com penas equivalentes à gravidade dos delitos.

Quando não há isso, ou seja, quando em vez de justiça, tem-se impunidade, a revolta permanece. Mas no geral, com o tempo, ela arrefece e vira conformismo.

Manifesta-se em palavras que dão vazão ao sentimento de quem se deixou abater pelo descrédito. O que não significa que nos tornamos seres violentos. Entre palavras, desejo e praticar o ato, vai grande diferença.

Na verdade, o problema é tratado por um termo inadequado que ajuda a ocultar o problema. O termo correto é criminalidade, não "violência". E a aquela se alimenta da impunidade. A violência é consequência principalmente desse estado de anomia.

O Brasil é um faroeste. E estamos todos conformados, entregues, passivos diante da impunidade e de leis inócuas.

E o pior é que pode piorar.

Anônimo disse...

A violência em Alagoas trnou-se banal. E creio ser um alívio ver que o bandido foi morto. E isso não quer dizer que sejamos violentos.

Jamylle Bezerra disse...

Realmente a violência tomou proporções antes inimagináveis, mas não concordo que o melhor remédio para ela é a própria violência. Ao mesmo tempo, não sei qual seria - na prática - a saída para esse mal. Falar é fácil demais. Dizer que a exclusão e as diferenças de classe geram tal violência é facinho, facinho. Difícil é ver que os ricos - que estão em busca de mais poder - também são financiadores de desse mal. Sinceramente, não sei onde vamos parar!

Iremar Marinho disse...

Sem filosofia, sem conversa e sem enrolação. A solução para o problema da violência, como para muitas outras chagas sociais, está na consciência da sociedade para acabar com a impunidade e a corrupção política.
Com o fim destas duas mazelas a sociedade vai ter recursos para a educação e para gerar trabalho, moradia, lazer e cultura, reduzindo os índices de criminalidade, e pronto!!!

Elmar Herculano disse...

Como diria Augusto dos Anjos nos seus versos íntimos:

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Infelizmente esta é a realidade.

Anônimo disse...

Dona moça,
São precisas e perspicases vossas verdadeiras considerações. Sinto-me impelido a partilhar convosco minha percepção de que esta violência desenfreada é perene, devendo estender-se pelos próximos dois ou três séculos. Nós não viveremos para rever a façe da paz.