domingo, dezembro 20, 2009

A infância independente

Eu que ando por essas ruas movimentadas de Maceió – de gentes passando para lá e para cá, subindo e descendo ônibus, vendendo água mineral, chiclete, jujuba, deliciosas balinhas de coco com leite condensado, raquetes mata-mosquito etc. – não posso deixar de prestar atenção nas crianças da cidade. Primeiro porque são exemplares-mirins da raça e atrairiam de qualquer maneira. Depois, por serem muitas e estarem todas tão jogadas à própria sorte desde muito pequenas.

Esses meninos e meninas talvez tenham pai e/ou mãe, mas no fundo no fundo são filhos da desigualdade que de certo modo lhes une feito um grau de parentesco. Fico observando seus passos como se nada pudesse fazer – e eu sei que posso – e tentando adivinhar qual futuro terão. Confesso que não gosto de imaginar alguns deles apontando armas para minha cabeça por alguns pertences amanhã, porém, de vez em quando tais pensamentos me invadem. Ainda que prefira idealizar um dia ouvir suas vozes no rádio, como novos Djavans; quem sabe até Djavans melhorados. Ou outros cantores, bailarinos, estudiosos, trabalhadores de todo seguimento.

Sonho demais. Deve ser porque fui uma criança que viveu unicamente a infância das brincadeiras inocentes, das cantigas de roda, de crescer numa cidade pacata do interior da Bahia que, dizem, já não é mais a mesma por conta das drogas e da violência. Antes da rebeldia da adolescência vivi uma meninice absolutamente dependente, dessas de segurar a mão de um adulto para atravessar a rua, pedir a benção, precisar de autorização para brincar na casa do vizinho, não conversar com estranhos e poder ficar, raríssimas vezes, com o troco do pão.

Algo muito distante dessas crianças que, na rua, me chamam de “tia” e estendem mãozinhas e olhares famintos na minha direção. Elas contabilizam o apurado do dia, trocam moedas com o cobrador nos coletivos, andam em bandos, tomam banho na praia, consomem drogas nas vias públicas e levam para casa (caso haja casa) pedaços do “sustento” diário. Como conseguem, sendo tão pequeninas, viver assim, ao deus dará? Até quando às vezes – e não me perguntem o porquê – deus não dá.

Foto: Isolda Herculano.

6 comentários:

Clauderlan Vilela disse...

É triste...

Railton Teixeira disse...

é lamentavel essa realidade, infelizmente o nosso sitema que se diz "democratico", apenas beneficia a uns, e é claro, a outro colocam a margem para que possam medingar e amanhã depois se tornarem fruto violentos, formentando outras vitimas.
Mas é claro que eu acredito, é o meu achismo como sonhador, que esta realidade um dia vai mudar, quando se deixar de alienar o povo, tanto religiosamente, quanto politicamente, a sociedade vai mudar, talvez eu ñ consiga acompanhar, mas tenho esperença.
Muito bom o seu texto Isolda, um artigo bem elaborado, que formenta a opinião e nos faz criticar e acordar para a realidade que esta debaixo dos nossos olhos e em muitos das vezes ñ queremos enxegar.

Anônimo disse...

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Jamylle Bezerra disse...

Triste mesmo Isolda, mas não se culpe por idealizar dias melhores pra essas crianças. Eu também acredito que elas podem ser grandes profissionais no futuro. Essa é a nossa vontade, mesmo que a realidade seja outra. Os sonhos fazem parte do bom viver e é neles que eu prefiro acreditar.

Brasil Empreende disse...

Ola visitei seu blog e gostei muito e gostaria de convidar para acessar o meu também e conferir a postagem de hoje: Jornalismo Globalizado: Um esforço alto a ser reconhecido. Aproveite pra participar das enquetes para escolher os protagonistas de 2009.
Sua visita será um grande prazer para nós.
Acesse: www.brasilempreende.blogspot.com
Atenciosamente,
Sebastião Santos.

Wanessa disse...

Isolda! sou sua fã!