segunda-feira, abril 26, 2010

O fascínio da política na figura do político

A política tem algo estranho, além dos melindres que se vê diariamente e dos que se escondem debaixo dos panos, e eu não sei dizer bem o que é, mas desperta sentimentos que vão da repulsa ao encantamento. A repulsa é aquela velha conhecida de todos, não chama tanta atenção e até se perde na paisagem. O encantamento, por outro lado, é tão contraditório que jamais passa despercebido.

Semana passada estive em um evento de caráter político e não pude deixar de observar o fascínio das pessoas pelas autoridades ali presentes – verdadeiros figurões da política alagoana e nacional ou apenas vereadores em seu primeiro mandato. Eu vi gente amontoada para tirar “retrato” ao lado de um desses homens em especial, pedir autógrafo para dar de presente a um parente que mora no interior; presenciei pessoas chorando suas mágoas como quem chora num ombro amigo e achei aquilo tudo muito deprimente.

E não estou falando apenas de uma população miserável. Falo de gente de todos os cantos, todas as cores, em seus variados níveis de entendimento. Gente que vestiu a roupa mais bonita antes de sair de casa ou que parou no local por acaso só de chinelos e bermuda. Gente diferente que se transformou por um momento em massa homogênea e empacou para ver a banda passar.

Uma figurinha, entre tantas, porém, chamou minha atenção. Talvez pelo fato de ser a menor de todas, em seus sete ou oito anos de ilusão. O menino olhou para cima acompanhando a verborragia política durante o discurso, escoltou “seu candidato” em cortejo até outro ponto da cidade sem sair da hipnose por um segundo. À primeira chance o pequeno virou para o político, que já deve ter visto algumas vezes pela televisão, e pediu:

- Tio, me dá dois reais?

O político riu o mesmo riso dos comerciais de tevê, dos santinhos e outdoors. Passou a mão na cabeça do guri e seguiu em frente.

Um pouco envergonhado, mas não desapontado, o moleque olhou para mim, que observava de perto, e rapidamente diminuiu o tamanho da própria precisão:

- Tia, me dá cinquenta centavos?

- Peça a ele – respondi, apontado para o político que se afastava da cena.

No que o menino retrucou, como quem justificava o outro:

- Ele não tem.

Mas ele tinha. E a banda passou.

Imagem: Google Imagens.

5 comentários:

Rafael Belo disse...

A influência da tevê e suas verdade mentirosas, acabam em desconto para alguém não televisionado. Ótimo relato Is! wow. Beijos bela ótima semana. bons sonhos.

Jamylle Bezerra disse...

Puxa!!! Sei bem como é isso Isolda. Somos o que vestimos, o que parecemos ser. Pelo menos esse é o pensamento da maioria.

Precisamos rever conceitos. Urgente!

beijos

Ahh... amei o novo layout. Tá lindo!

Mário disse...

"Entre os americanos, a força que administra o Estado é muito menos regulamentada, menos esclarecida, menos sábia, mas cem vezes maior do que na Europa. Não há país no mundo em que os homens façam, em definitivo, tantos esforços para criar o bem-estar social. Não conheço povo que tenha conseguido estabelecer escolas tão numerosas e tão eficazes; templos mais condizentes com as necessidades religiosas dos habitantes; estradas comunais mais bem conservadas. Portanto, não se deve buscar nos Estados Unidos a uniformidade e a permanência das concepções, a atenção minunciosa com os detalhes, a perfeição dos procedimentos administrativos; o que lá encontramos é a imagem da força, um tanto selvagem é verdade, mas cheia de vigor; da vida, acompanhada por acidentes, mas também de movimentos e de esforços.
Admitirei de resto, se quiserem, que as cidadezinhas e os condados dos Estados Unidos seriam mais utilmente administrados por uma autoridade central situada longe deles e que lhes permanecesse estranha, do que por funcionários recrutados em seu seio. Reconhecerei, se exigirem, que reinaria mais segurança na América, que se faria um uso mais inteligente e mais judicioso dos recursos sociais, se a administração do país fosse concentrada numa só mão. As vantagens políticas que os americanos extraem do sistema da descentralização ainda me fariam preferi-lo ao sistema contrário."

Mário disse...

"Afinal de contas, que me importa que haja uma autoridade sempre estabelecida, que zele para que meus prazeres sejam tranquilos, que corra diante de meus passos para afastar todos os perigos, sem que eu nem sequer tenha necessidade de pensar nisso, se essa autoridade, ao mesmo tempo que tira assim os menores espinhos da minha passagem, for dona absoluta da minha liberdade e da minha vida? Se monopolizar o movimento e a existência a tal ponto que seja necessário que tudo languesça em torno dela quando ela languescer, que tudo durma quando ela dormir, que tudo pereça se ela morrer?

Há nações assim na Europa, em que o habitante se considera como uma espécie de colono indiferente ao destino do lugar que habita. As maiores mudanças sobrevêm em seu país sem seu concurso; ele não sabe nem mesmo direito o que aconteceu; imagina; ouviu o acontecimento ser narrado por acaso. Muito mais, a fortuna de sua aldeia, a polícia da sua rua, a sorte da sua igreja e de seu presbítero não lhe interessam; ele acha que todas essas coisas não lhe dizem absolutamente respeito e pertencem a um estranho poderoso a que chamam governo. Quanto a ele, desfruta desses bens como usufrutuário, sem espírito de propriedade e sem idéias de qualquer melhora. Esse desinteresse por si mesmo vai tão longe que, se sua própria segurança ou a de seus filhos for enfim comprometida, em vez de procurar afastar o perigo, ele cruza os braços para esperar que a nação inteira corra em sua ajuda."

Mário disse...

"Esse homem, de resto, embora tenha feito um sacrifício tão completo de seu livre-arbítrio, não gosta mais que outro da obediência. Ele se submete, é verdade, ao bel-prazer de um funcionário, mas se compraz em afrontar a lei como um inimigo vencido, mal a força se retira. Por isso nós o vemos oscilar entre a servidão e a licença.

Quando as nações chegam a tal ponto, têm de modificar suas leis e seus costumes, ou perecem, porque a fonte das virtudes públicas fica como que seca; encontramos nelas súditos, mas não vemos cidadãos."

Alexis de Tocqueville em "A Democracia na América", 1832.

Nada há de novo sob o Sol, Isolda. Se há a liberdade, há também o medo da liberdade. Nem todos os povos querem saber dela. Muitos preferem a "segurança" de um estado patrimonialista e paternalista, um pai dos pobres a afastar os espinhos. Liberdade e o que ela acarreta pode ser uma coisa assustadora. Por isso proliferam as tiranias. Por isso, ditadores e políticos incompetentes ou corruptos são adorados. A democracia moderna nasce com esse espírito tão bem caracterizado nas palavras de Tocqueville. E fenece naquelas nações propensas a adotar um simulacro, um arremedo, por puro comodismo, preguiça ou medo da liberdade.