sexta-feira, julho 30, 2010

Capa: o choque em xeque

Falando jornalisticamente ou não o certo é que capas de publicações ou destaques virtuais têm o papel fundamental de chamar o leitor à leitura. E em se tratando de instantaneidade a imagem – que além de tudo desconsidera se o público é ou não alfabetizado – ainda impera sobre a palavra nessa fase inicial de conquista. Concordam? Aceito contrapontos.

Pois bem, ao deparar com a mais recente capa da norte-americana TIME retomo um questionamento que sempre me faço para os casos de capas que chocam: isso era mesmo necessário? O destaque é Aisha, uma jovem afegã de apenas 18 anos que foi sentenciada à mutilação pelo regime talibã depois de tentar fugir do convívio da família que, segundo texto do blog Mulher 7x7, a maltratava. No mesmo episódio Aisha perdeu as orelhas, conta o post.

A capa tem sua intencionalidade, claro, e ela não pode ser apenas contar a história sofrida de uma garota afegã no momento exato em que os Estados Unidos precisam de uma justificativa forte para manter suas tropas no Afeganistão, contornando uma "promessa" do presidente Obama que dizia o contrário. Fotos também têm entrelinhas para serem lidas. O apelo da publicação é: caso os americanos deixem o país a vida de muitas mulheres voltará ao sofrimento de antes da chegada deles. Com isso a TIME não quer vender apenas revista, quer vender uma ideia e a foto é um artifício genial.

O choque era indispensável? Coisas ruins acontecem com as pessoas, diz o diretor de redação Richard Stengel: “Eu preferi confrontar os leitores com o tratamento do Talibã às mulheres a ignorá-lo”. A tragédia de Aisha é real, ninguém duvida, mas toda foto, por mais fiel que seja ao motivo, vai ser sempre um recorte da realidade. Nesse caso, de uma realidade afegã que defende a manutenção de uma necessidade americana. E isso também me choca.

E vocês internautas: o que acham das fotos chocantes?

Em tempo: a jovem afegã, informa o blog Mulher 7x7, está sob a proteção da ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs e fará cirurgia para a reconstrução do rosto.

7 comentários:

Anônimo disse...

Nem parece q vc passou pela faculdade: capas precisam ser chamativas. Esta é a premissa!

Clauderlan Vilela disse...

Também me pergunto se o choque é indispensável... Acredito que há vários recortes possíveis...

E tem imagens que podem trazer uma sensação contrária a de atrair à leitura dos fatos.

No entanto, penso que um debate sobre o assunto se assemelharia em duração ao tempo que leva uma discussão sobre religião ou política...

Isolda Herculano disse...

Olá,Anônimo.

Concordo que capas devem ser chamativas.O que está em discussão aqui é: até onde vale chocar para chamar atenção?

Ah, e passei pela faculdade sim, embora isso nem seja mais necessário para jornalistas.

Blogar é isso: dialogar.
Isolda.

Bruno Felix disse...

Ah, o anonimato. Como é bom não ter que dar a cara pra bater, não é?

Sobre o chocar: quem vive em Alagoas e tem os grotescos pseudo-telejornais que nós temos, capa de revista com garotas mutiladas é fichinha. Viva o jornalismo "verdade", se espremer o jornal pinga sangue. Por isso que temos comentários como o do querido Anônimo.

Um cheiro, Isolda!

Mário disse...

Isolda, salvo engano, a promessa de campanha de Obama era sair do Iraque e aumentar o número de soldados no Afeganistão.

Não li a matéria da Time, mas sabemos que os EUA não estão lá para reformar a visão dos Talibans. Estão lá por causa dos ataques de 11/09, realizados por organização terrorista que contava com o apoio do governo tabliban (é bom não esquecer disso).

Por outro lado, se os EUA saírem do Afeganistão e os talibans voltarem ao poder, o islamismo fundamentalista poderia mesmo voltar a dar as cartas, retomando práticas de cortar narizes, decepar mãos, chicotear homens que façam a barba, dinamitar estátuas milenares, abolir o ensino para mulheres, matar quem se converter ao cristianismo, etc.

A autocrítica, democracia e liberdade de pensamento são atributos da sociedade ocidental, que muitos adoram chamar de "decadente", "consumista", "capitalista", "individualista", "injusta". Simbolizando o ocidente, está o país que inaugurou o modelo de estado democrático moderno, os EUA. O antiamericanismo de muitos os levam a se alinhar com cortadores de narizes, genocidas, aiatolás atômicos e ditadores. Tudo em nome da "pluraridade", da "diversidade das culturas", do "respeito às diferenças", mas sempre contra o "império" americano. Todos serão perdoados, menos os americanos. Pra quem perdeu o nariz, a vida, a liberdade, esse papo de diversidade não traz nenhum consolo. É preciso dar nome aos bois. Barbárie é barbárie, crime é crime. Sem esse cinismo moderninho que muitos chamam de "isenção". A opção é clara. Existem sociedades abertas e democráticas. E existem aquelas totalitárias, opressoras, autoritárias e as que beiram o barbarismo. Em que tipo de sociedade preferimos viver?

Isolda Herculano disse...

Olá, Mario.

Pelo que entendi de algumas reportagens que li sobre o assunto antes e rememorando agora, o envio de mais soldados para o Afeganistão pelo presidente norte-americano seria para acelerar o processo de transferência de responsabilidades para forças afegãs. Justamente como diz um trecho da fala de Obama nessa reportagem de O Globo: http://bit.ly/5AFoEt

É mais ou menos como mandar mais soldados para agilizar o processo de retorno da tropa inteira. Discurso bonito. A retirada da tropa do Iraque também faz parte da "promessa".

Seus comentários, sempre embasados, ultrapassam os limites das discussões jornalísticas iniciadas por aqui e tomo isso como um ganho.

Obrigada também aos amigos Clauderlan e Bruno (gato) Félix pela aparição.
Isolda.

Rafael Belo disse...

Chocante mesmo.a delicadeza da beleza a brutalidade da mutilação as más intenções norte-americanas... Belo post IS beijos