segunda-feira, outubro 18, 2010

Jornalismo mata?

Final de semana passado assisti ao filme Tropa de Elite 2. Excelente história, enredo amadurecido, belas atuações, enfim, recomendo para quem quer que seja. E como jornalista que sou, não poderia deixar de voltar minha atenção para um drama, entre tantos, apresentado no longa-metragem. Trata-se do personagem de uma colega de profissão que perdeu a vida enquanto investigava a estreita relação entre milícias e políticos de grosso calibre nas favelas do Rio de Janeiro. Tudo isso em pleno período eleitoral. Um verdadeiro furo, caso ela tivesse conseguido concluir a pauta.

Alguns jornalistas dizem de boca cheia: fariam de um tudo por uma excelente reportagem. A verdade é que não fariam; tudo é muita coisa. Entre perder a vida em busca de uma grande matéria e permanecer vivo cumprindo pautas medianas e até medíocres não há o sujeito que prefira a morte, simplesmente porque o bom jornalista – se morto! – deixa de existir. Agora, é também verdade que jornalistas têm complexo de super-herói e pensam que nada de mal pode lhes acontecer, que tomam todas as precauções e possuem anos de experiência no ramo (como se isso fosse um antídoto), blablablá. O perigo mora aí.

Em 2009 trabalhei cobrindo a área policial para um site de notícias alagoano; dois, aliás. Convivi com policiais civis e delegados plantonistas das famosas Delegacias de Plantão (Deplans 1, 2 e 3) que depois viraram uma só – a Central de Polícia. Alguns são meus amigos ainda hoje. É claro que conheci histórias horripilantes, fotografei muitos e muitos cadáveres, assassinos, agressores de mulheres, estupradores, pedófilos, conversei com policiais militares de várias guarnições etc. E cresci mais do que imaginei na função, perdi medos, ganhei doses extras de atrevimento. Naquele tempo a ordem na redação era: repórter só começa a atuar quando a viatura policial estiver presente - por motivos óbvios. Mas muitas vezes a equipe de reportagem chegava antes da polícia. Os motoristas, estratégicos, davam uma volta no quarteirão e esperavam comigo no carro as autoridades se aproximarem. Às vezes demorava e o sangue do morto começava a endurecer no chão.

Não, eu não obedecia religiosamente àquela ordem da redação. Já desci do carro com a máquina à mão enquanto "neguinho" era espancado pela população, passei informação aos policiais que chegaram quando o bonde tinha andado um bocado, levei empurrão em meio de confusão, corri o risco de ter o material levado e respondi ameaça de familiares de um drogado em pleno surto. Nada disso por coragem e sim instinto, coisa que se fala muito em jornalismo e ninguém sabe ao certo explicar o que é. Esses momentos acontecem com jornalistas de todo o mundo, todos os dias. A motivação não precisa ser uma grande reportagem e quase nunca é. Se pudesse escolher não faria, mas sempre fiz, porque nessas horas - parece até infantil assumir isso - não se pensa em vida e morte, apenas em ter uma boa história para contar e voltar à base com a impagável sensação de missão cumprida.

Imagem: Isolda Herculano.

4 comentários:

Anônimo disse...

Me vi neste teu texto, Isolda! Isso pq trabalhei à noite dois anos da minha pequena carreira profissional e já vi e fiz muita coisa que até hj não acredito. Cenas que, surpreendentemente, não me deixavam impressionada quando ia dormir, sei lá, alguma coisa faz que com a gente faça e pronto. Depois vamos dormir e nos preparar para mais um dia de labuta. Isso, infelizmente, é o jornalismo de hj.
Beijos!
Anny Rochelly.

maikelmarques.com disse...

Isolda, depois de 10 anos de profissão, confesso-te: prudência no exercício do ofício não faz mal a profissional algum. Submeter-se a certos perigos nem sempre nos rendem frutos duradouros. É melhor voltar ao lar todo dia para recomeçar o exercício do ofício no dia seguinte a ter que virar mais uma cruz no cemitério dos desaparecidos que buscavam o furo de reportagem sem qualquer preocupação com o mínimo de segurança.

Isolda Herculano disse...

Anny, sim, o jornalismo nos deixa esse tipo insensível mesmo... E acabamos banalizando muitas coisas; às vezes as tirando da vida e levando apenas para o lado da notícia.
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Maikel, concordo com você e, assim como a Anny, hoje não faria algumas das coisas que já fiz por estar no exercício da profissão. E essa filosofia de voltar para casa todos os dias também é minha.

Abraços.
Obrigada pela visita!

Clauderlan Vilela disse...

Ainda estudante, leio e assisto as matérias da editoria de polícia vez em quando. Quando demonstro interesse em algum assunto mais polêmico, surge a preocupação da minha família. Não posso dizer dessa água não beberei, mas o problema é que a investigação mexe com interesses. Aí está o perigo.