quarta-feira, fevereiro 02, 2011

“Não dou meu um real em jornal de papel”

Há alguns dias atrás entrou em minha sala um sujeito (60 anos em diante) com um comentário forte, enfático, uma frase de efeito: “Não dou meu um real em jornal de papel, é dinheiro jogado fora!”. Cabe abrir um parêntese para revelar que o senhor é dos mais endinheirados que conheço e tem lá sua dose de generosidade, portanto, não se trata de uma questão avarenta. Na simplicidade de leitor, ele abordou o tema que leva teóricos da comunicação ao êxtase discursivo: jornal impresso vai acabar?

Aquele senhor sexagenário, que atesta ter vivido o apogeu do impresso, acredita que sim. Eu acredito nele, que deu uma aula de exemplos práticos não estudados em faculdade. Lembrou-se de um compadre seu que devorava diariamente edição inteira de um jornal alagoano, hábito que lhe levava um bom pedaço do dia. Lia até as últimas linhas dos Classificados, só depois aquietava. Pois bem, com a morte deste segundo senhor nunca mais se leu jornal em sua casa. Primeiro: os herdeiros não renovaram a assinatura. O mundo também já era outro: a tela do computador e os cabos da internet traziam a informação veloz como nunca.

Para aquele homem que entrou com o comentário pesado no meio do expediente, o jornal impresso morre e não tarda. Basta morrer a geração que ainda sente por ele algum apego. E olhe que nem discutimos custos operacionais, diploma de jornalista, publicidade versus informação etc. Não precisava. Na mente dele tudo luzia. Qualquer argumento meu ali, contrário, serviria para alimentar suas certezas. Calei-me, depois de poucas falas, mas quando ele passou pela porta me pus a pensar sobre o que tinha ocorrido.

Suas netas de seis, oito, dez anos, sabem tudo de computador – disse antes de ir embora, com brio exagerado. E continuou: não vale à pena esperar pelo jornal de terça-feira para ter notícia do que aconteceu no sábado à noite; não aceita ser dono de jornal nem de graça, mas pensa em comprar uma emissora de rádio (meio que mais lhe empolga em jornalismo). Recordei os colegas do impresso que trabalham suado, ainda que para trazer no dia seguinte as informações exaustivamente dadas pelos outros veículos no dia anterior. Ele não se comoveu. Repetiu que sente muito, mas não daria seu um real em jornal de papel e saiu batendo a porta. Quer saber de uma? Nem ele nem eu.

8 comentários:

Kleverton Journaux disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kleverton Journaux disse...

Legais seus argumentos, Isolda. Super válidos!

O Divã Dellas disse...

É, Isolda.
O tempo avança, o moderno chega e algumas coisas são massacradas.
Não há como evitar.
Como sou saudosista, ainda acho legal o Jornal de Papel. Prefiro o livro à tela, por exemplo.
Mas...
Beijos,
Cinthya

Salomão Miranda disse...

Eu pagaria meu suado dinheiro em um jornal impresso. Desde que não fossem panfletos da elite, como todos os grandes e médios jornais assim o são.

Outra coisa: penso que o jornal impresso não tem mais motivo para querer dar a informação em primeira mão. Este papel está se transferindo mesmo para outros meios, como a internet e o celular. O jornal impresso, se ainda quiser sobreviver, deve ser mais explicativo, conter mais reportagens, esquecer um pouco as notícias.

Fábio Costa disse...

A verdade é que os jornais impressos precisam se reinventar. Eles não são mais a principal fonte de informação do leitor e não podem continuar se limitando ao factual, na maioria das vezes apenas repetindo o que já foi amplamente divulgado pelos sites e portais de notícias. A impressão que tenho ao pegar um jornal pela manhã é que se trata de uma edição velha.

Carla Farinazzi disse...

Oi Isolda,

Gostei muito de seus blogs. Eu acho o jornalismo essencial. Seja em papel, seja virtual, seja falado...
E eu concordo com este senhor com relação ao rádio. Eu adoro rádio!

Beijos

Carla

Estado de Ira disse...

Mt bom o texto Isolda, já estou por aqui viu?
Espro ver vc logo logo no meu.
Abração.

Rafael Belo disse...

Eu gosto do cheiro, da pegada do jornal impresso, mas não pelas notícias em si que já são velhas... Pelo artigos, crônicas editorias... E quem dera fosse ainda um real! Belo texto querida, saudades beijos linda!