sexta-feira, abril 08, 2011

Como nunca estivemos seguros

Este caso da matança numa escola pública no bairro do Realengo, Rio de Janeiro, me forçou a voltar a uma história que não sinto prazer nenhum em revisitar. Porém, é importante enfrentar traumas.

Uma vez na vida fui ameaçada de morte por um camarada. Ele disse publicamente que iria me matar e algumas pessoas que moravam no mesmo prédio que eu foram testemunhas. À época, estudava Comunicação na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande (PB), e meus pais tentaram me convencer a abandonar a faculdade, dar um tempo, o que fosse. Continuei o curso, sem pausa, para o desespero deles que moravam no interior da Bahia.

Confesso que morria de medo que o sujeito invadisse a sala de aula e atirasse contra mim, contra os outros alunos, pois a faculdade era meu espaço mais vulnerável. Digo com convicção que ele teria toda a facilidade do mundo em fazer isso, caso quisesse. Sorte minha, não quis. Estou viva, e foi a partir daquele episódio que comecei a atentar para a completa falta de segurança nas instituições públicas de ensino deste país. Era meu drama pessoal, claro, mas não deixava de ser uma chamada coletiva.

Espero que a tragédia que se abateu sobre alunos, pais, professores, comunidade – e, de alguma maneira, o país – sirva para alguma discussão séria, seguida da tentativa rápida de solucionar o problema. Para que quando a notícia esfriar nos jornais, daqui a alguns dias, as vidas perdidas não tenham sido em vão. E para que as outras pessoas não deixem para sentir a dor da violência apenas quando uma bala chegar as suas cabeças.

Imagem: Victor R. Caivano/AP.

3 comentários:

Anônimo disse...

Isolda,

Escolas... na maioria,
A segurança inexiste.
Se houvesse, fato tão triste
Jamais aconteceria.
Se "alguém" resolver, um dia,
Instalar, entre os portais,
Detector de metais
Ou outra coisa que o valha,
Louco, bandido ou canalha
Fica do portão pra trás.

Dedé Monteiro

Mário disse...

Isolda,

É praticamente impossível prevenir-se de atos tresloucados como este que ocorreu no Rio.

Há indivíduos psicóticos (o assassino era esquizofrênico) e psicopatas cujo comportamento e reações não podem ser preditos visto que não pensam nem agem dentro de padrões de normalidade. Os psicóticos vivem num mundo à parte. Psicopatas não pensam nem sentem como pessoas comuns.

Porém, em nossa época, firmaram-se certos consensos que precisam ser revistos. Há alguns anos o poeta Ferreira Gullar escreve artigos denunciando os malefícios do fim da internação para doentes mentais. Gullar tem dois filhos esquizofrênicos. Ele, por ter condições, podia internar seus filhos quando acometidos por surtos psicóticos. Mas essa "humanização" no tratamento de portadores de doenças psiquiátricas leva os mais pobres, que não têm dinheiro para custear um internamento numa clínica particular, a enfrentar um grande problema. A rede pública já não oferece esse serviço, salvo algumas exceções. Não estou aqui a propor internamento perpétuo para doentes mentais, não se trata disso. Apenas ressalto que a prática do internamento (acaso quando sofremos algum mal que atinja nosso corpo não ficamos internados em hospital?) não pode ser abandonada.

Há alguns anos tivemos, em Maceió, um caso de um cidadão que assassinou o genro quando de um surto psicótico.

Em relação à questão da segurança, como você observou muito bem, o fato é que 100% de segurança não haverá em lugar algum. Outros "consensos" modernos também contribuem para a insegurança. Nas universidades, por exemplo, é proibido a presença da polícia militar. Recentemente, casos de assaltos e estupros no campus da USP foram noticiados. Detalhe: a guarda universitária não pode andar armada. O mesmo se dava com a segurança da universidade Virginia Tech, onde aquele coreano maluco assassinou estudantes e professores. O que poderiam fazer num caso desses?

As vezes nos esquecemos de que no mundo existem essas coisas. Pessoas com impulsos, pulsões violentas e comportamento imprevisível. A verdade assustadora é que pouco podemos fazer. Ainda mais num país em que o cidadão não têm seus direitos fundamentais respeitados, pilar básico da democracia. Some-se a isso a impunidade que premia os criminosos mais torpes (é falsa a idéia que só os ricos saem impunes, apenas 10% dos homicídios são solucionados no país), seja porque nem sequer chegam a ser julgados, seja por abrandamento de penas, indultos e outros artifícios legais.

Numa democracia verdadeira, todos tem de ser chamados à responsabilidade por seus atos. Os indivíduos tem de ter seus direitos respeitados. Mas, nesses tempos de mentalidade coletivista, os indivíduos são esmagados por demandas de grupos organizados e toda responsabilidade individual é diluída em explicações sociais ou coletivas ("a culpa é do sistema"). Embora não tenha a ver com o caso específico, o efeito "pedagógico" disso para a sociedade brasileira pode ser avaliado pelos 50 mil cadáveres vítimas de homicídio que produzimos anualmente.

Elmar Herculano disse...

Apesar de ser difícil prever ações criminosas assim, algumas precauções podem e devem ser tomadas para que se minimize esse ou qualquer tipo de violência. Só para exemplificar: terremoto é uma catástrofe de proporções terríveis para tantos lugares, mas o Japão consegue conviver com ele sem os prejuízos de nações mais incautas.
O que estão querendo nos convencer é de que este é um caso atípico e que jamais vai acontecer outro igual. Mas isso é muito óbvio; nada vai acontecer outra vez da mesma forma. No entanto é preciso que não nos esqueçamos de que a violência nas escolas brasileiras não é caso atípico; assassinato de alunos e professores nos educandários do Brasil é um fato bastante corriqueiro.
É necessária uma urgente discussão desse tema, mas que essa discussão não tenha o destino de tantas outras, que são esquecidas com o advento de um novo evento.
Quando teremos neste país alguém que queira, de verdade, resolver essa violência que nos envergonha?
Como diria Mr. Bob Dylan: Yes and how many deaths will it take till he knows that too many people have died?
Elmar