sábado, abril 09, 2011

Nosso desenvolvimento febril

Meu pai é quem diz mais ou menos assim: acho que um país não deveria se preocupar em ser potência econômica se não oferece ao seu povo uma estrutura satisfatória de saúde, educação e segurança. Ele – que não tem pretensões políticas – não fala isso por discursismo. É apenas um cidadão mostrando sua indignação diante do noticiário febril que anuncia o Brasil como país do futuro, como se o presente fosse um detalhe bobo.

A imagem do fotógrafo Rogério Cassimiro, que ilustra este post, é uma das mais comoventes que já vi. Sozinha, ela relata a história de um senhor de idade e enfermo, atendido debaixo da maca em um hospital público de Porto Velho (RO). Pensando coletivamente, a fotografia chama para a realidade da saúde pública em várias capitais do país; Maceió não foge à regra (imagens semelhantes poderiam ser captadas no HGE). Isso quer dizer que somos pobres, paupérrimos, e não adianta querer vestir a carapaça de país desenvolvido ou em desenvolvimento. Como uma roupa apertada, ela não cabe.

“A vida do brasileiro melhorou muito: hoje, todo mundo tem condições de quitar as prestações da casa e do carro próprio”, ouço por aí. Mas, que desenvolvimento é esse que dá a uma parte da população (que não é “todo mundo”) a possibilidade de ter plano de saúde, porque há um medo generalizado de contar com o SUS? Desenvolvimento é pagar a mensalidade do filho que, estudando em colégio público, tem suas chances minimizadas ao extremo? Desenvolvimento é se trancar atrás de grades, cadeados, cercas elétricas e segurança privada, pois a violência chegou à porta de casa? São estas as contas que o dinheiro do desenvolvimento paga?

Que nós, povo brasileiro, tenhamos pelo menos a coragem de rever os nossos conceitos. Já seria um começo.

Imagem: Rogério Cassimiro.

3 comentários:

Elmar Herculano disse...

Os poetas, esses seres de luz, sempre conseguem falar por nós. Vejam:


LINDO E TRISTE BRASIL

Toquinho

Sou nascido aqui nesse país.
Tão gigante, tão franzino,
SEU DESTINO AO DEUS-DARÁ.
Rios e fontes aos montes
E dunas de areia em beiras de mar.
Tudo aqui é mesmo tão lindo, morena,
Pena que o homem não pensa em cuidar.
A SOLIDÃO É VIVER SEM NINGUÉM
EM QUEM PODER CONFIAR.
Minha gente é gente desse país.
Povo lindo, chora rindo, canta na Sapucaí.
Entre enredo e passista
Misturam-se médico, artista e gari.
Com muito pouco que temos
Ainda sabemos, sofrendo, cantar e sorrir.
SOU DO PAÍS DO FUTURO,
FUTURO QUE INSISTE EM NÃO VIR POR AQUI.
Somos muitos e muito podemos fazer.
Vai rolinha, pintassilgo,
Vai andorinha e tiziu.
Nadem golfinhos e peixes
Nas águas dos mares, dos lagos, dos rios.
Quem sabe ainda veremos
O que o Poetinha um dia sonhou mas não viu:
PÁTRIA, MINHA PATRIAZINHA, TADINHA,
LINDO E TRISTE BRASIL.

Rafael Belo disse...

febre são nossas ilusões perdidas de Balzac ... O descaso com hospitais e atendimentos no chão, nos corredores, morte em frente aos hospitais é febrilmente abusiva em cada cidade, infelizmente... Belo texto querida saudades, como está Is? beijos na alma

Tathiane Panziera disse...

Imagem IMPACTANTE

Certo mesmo está seu pai... Enquanto enviamos ajuda humanitária ai para os demais paises pobres da América. Brasileiros sofrem em hospitais. Lembrei de uma nota que vi circular na web, onde o entrevistado, revela que lá fora acham engraçado o Brasil querer fazer parte da ONU se nem dos nossos damos conta de cuidar.

E citando outro poeta, certo mesmo estava Renato Russo, quando perguntava Que País é esse? E cantava Perfeição.